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Boicote de Pabllo Vittar pode afetar a marca de calçados que apoia Jair Bolsonaro?


Há clamor forte na internet para que gays não comprem mais nada


Pabllo Vittar em cena do clipe "Problema Seu", de seu segundo álbum - Reprodução/Instagram/pabllovittar


























03/09/2018  Publicado às 13h47

 “Pink money” (dinheiro cor-de-rosa) é uma expressão em inglês que começou a circular no Brasil há pouco tempo. Mas a ideia não é nova: desde, pelo menos, o começo da década de 1970, que a comunidade LGBT promove boicotes e protestos contra empresas que promovem a homofobia.

Mais do que afetar as vendas, esse tipo de ação atinge outro ponto bastante sensível das marcas: a imagem. Nos dias que correm, ninguém quer passar por preconceituoso. Tornaram-se comuns os pedidos de desculpas por anunciantes que, propositalmente ou não, veicularam mensagens que podem ser entendidas como favoráveis à discriminação de gays, lésbicas, transexuais e travestis. 

Responsáveis por um comercial de 2010 que sugeria que nem tudo deve ser compartilhado (e implicando que os gays têm que continuar no armário), os salgadinhos Doritos hoje fazem campanhas de apoio à Semana do Orgulho Gay. 

A rede de supermercados Hirota, pertencente a uma família evangélica, correu para retirar de suas lojas folhetos “em defesa da família” (eufemismo para dizer que é contra os direitos igualitários), depois de ouvir uma gritaria nas redes sociais. 

A drag queen Pabllo Vittar em ensaio fotográfico na paradisíaca Fernando de Noronha /Bruno Santos/Folhapress
 Remando contra esta maré está Victor Vicenzza, dono de uma marca de calçados que leva seu próprio nome. Depois de declarar apoio ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), Vicenzza viu seus perfis no Instagram e no Facebook serem invadidos por uma enxurrada de comentários negativos. 

Isso porque suas botas de cano alto, algumas com design bastante espalhafatoso, são muito usadas por drag queens e outros artistas voltados para o público LGBT. Alguns modelos até trazem o arco-íris, símbolo da diversidade sexual. E o próprio slogan da empresa parece ser simpático aos gays: “Freedom, Choice” (liberdade, escolha). 

No entanto, mesmo depois de desagradar boa parte de seu público-alvo, Vicenzza não voltou atrás. Pelo contrário: publicou um comunicado na web onde diz que continuará lutando contra o preconceito, mas que acredita que Bolsonaro “é o único candidato apropriado para liderar esta nação”. E vai além, desprezando o poder do “pink money”: não estaria pensando apenas em dinheiro. 

Bolsonaro já fez inúmeras declarações homofóbicas. É preciso ser cego e surdo para não tomar conhecimento delas, ou realmente desprezar a luta pelos direitos igualitários, para votar no candidato. No entanto, a Constituição garante a Victor Vicenzza o direito de ser incoerente, e também o de declarar sua incoerência aos quatro ventos. 

No sábado (1º.), a cantora Pabllo Vittar avisou que não irá mais usar produtos da Victor Vicenzza em seus clipes e shows. Também há um clamor forte na internet, pedindo para que gays e drags não comprem mais nada da marca. 

Vai dar certo? Em termos monetários, talvez não. O segmento LGBT corresponde a cerca de 10% da população, e uma fração ínfima dele consumia as botas da Victor Vicenzza. Por outro lado, a marca perde uma vitrine poderosíssima, e seus mais entusiasmados influenciadores. Além disso, seu slogan “liberdade, escolha” perde totalmente o sentido. 

Victor Vicenzza talvez não sinta nada no bolso, de imediato. Mas a imagem de sua empresa está arranhadíssima, e isso também vale dinheiro.

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com



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